sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Exposição homenageia o espetáculo “BENÇA”

De 27 de janeiro até março, acontece a exposição “Bença”, do fotógrafo João Milet Meirelles, no Teatro Vila Velha. Trata-se do ensaio fotográfico feito a partir da peça teatral que comemora os 20 anos do Bando de Teatro Olodum.

As fotos transbordaram o conceito de registro e se transformaram num terceiro trabalho onde uma homenagem ao tempo e o respeito aos mais velhos foram traduzidas em imagens fotográficas. No ensaio, além das relações imagéticas com a peça, há também uma homenagem aos mestres e à tradição: os antepassados fotógrafos e criadores de imagens da Bahia, como Verger, Carybé e outros.

Esta exposição vem consolidar a pesquisa do fotógrafo em seus ensaios com as artes cênicas: suas fotos são parte da construção imagética do espetáculo, o que amplia o conceito de registro para um trabalho compartilhado e propositivo e também amplia as relações de criação que envolve seus projetos.

É também com interesse nas relações temporais dos ofícios cênicos que o trabalho do artista se relaciona com a peça “Bença” de forma profunda – uma homenagem ao tempo. “Nada como uma técnica que se caracteriza por eternizar instantes para tal homenagem”, diz o fotógrafo.

Essa exposição abre a porta para a construção de um livro onde fotos e textos estarão integrados num todo criativo a ser realizado ainda este ano em parceria com o próprio Bando.

João Milet Meirelles, 25 anos, nasceu em Salvador, BA, filho de artistas de teatro, segue a carreira de fotógrafo e músico. Desenvolve as duas linguagens a partir do interesse especial pela cena, onde cresceu rodeado e envolvido profissionalmente. Como fotógrafo trabalhou em diversas peças teatrais e de dança com grupos importantes da cena cultural de Salvador como o Bando de Teatro Olodum, A Outra Cia de Teatro, Cia Viladança, Dimenti, Cia Novos Novos, dentre outros; além de grupos internacionais como o do coreógrafo Tadashi Endo (Japão). Fotografou ensaios com o cantor Carlinhos Brown (para publicidade do artista e para a Revista Muito) e com o arquiteto Lelé. Participou ao lado dos fotógrafos Bruno Maciel, Lincoln S. e Mariana David do grupo “4 Sobre Tema”, com quem desenvolveu exposições e uma revista virtual com ensaios baseados num tema comum para cada edição.

Hoje estabelece parceria com o fotógrafo Tiago Lima, para pesquisas estéticas, idéias e desenvolvimento de projetos. João Meirelles participou de diversas exposições, sendo elas: “Dança das Muitas” no Teatro Vila Velha ao lado da fotógrafa Ingrid Klinkby e da ilustradora Vânia Medeiros; “Entre Centros” na galeria do ICEIA ao lado de Marcondes Dourado, Caetano Dias, Gaio, dentre outros; “Oferecer à Sombra Um Calor” no cinema Sala de Arte XIV; Exposição coletiva com curadoria de Caetano Dias na galeria da Aliança Francesa; “(A)s” e “Univoracidades” com o 4 Sobre Tema na galeria da Saraiva Megastore e Galeria ACBEU respectivamente.

Além dos projetos fotográficos relacionado aos palcos, desenvolve trabalhos autorais, realiza produções e direções artísticas. Compôs, dirigiu e executou diversas trilhas sonoras de espetáculos para grupos como o Viladança, A Outra Cia de Teatro, dentre outras. Encabeça projetos como a banda Beto Junior e o projeto CRÂNIO. Seu trabalho de composição, produção e direção musical carrega as nuances da imagem e de uma estética outra.

Serviço:

BENÇA
O quê: Exposição de fotos de João Milet Meirelles
Onde: Foyer do Teatro Vila Velha
Abertura: 27 de janeiro de 2011 – 17h

Temporada: até 31 de março de 2011, antes e depois de cada espetáculo, conforme programação do Teatro.

Exposição homenageia o tempo e os mais velhos a partir de
cenas do espetáculo “BENÇA”



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O DISCURSO FINAL


Bom dia a todas as pessoas presentes.

Mais que o tempo, o espaço separa este janeiro do janeiro de 2007.

A distância física não é muita: poucas centenas de metros separam o Palácio Rio Branco, onde estamos, da Rocinha ou Vila Esperança ou Vila Nova Esperança, onde assumi o cargo, em 2007, mas um universo nos separa de lá. O que gostaria agora era de estar inaugurando sua reurbanização, a partir do brilhante projeto de Marcelo Ferraz, e vendo a reocupação do espaço, por seus moradores. Não foi possível.

Na Rocinha, em 2007, não me transmitiram o cargo, como fazemos agora. Não existia uma Secretaria da Cultura nem um secretário para tal ato. Isto foi inaugurado pelo governo Wagner, alí. Quando apresentei equipe e projeto.

Naquele janeiro de 2007 chovia e tinha muita lama na vila Nova Esperança, mas sete secretários e a primeira dama estavam naquela comunidade onde o Estado nunca esteve, a não ser através da polícia. No dia seguinte um jornal estampava, na primeira página, uma foto onde eu, no ar, pulava uma poça de lama. Foi o que fiz muitas vezes durante a gestão. Tive que pular muitas poças de lama.

A reportagem dizia que meu discurso foi mais o de um diretor de teatro do que o de um secretário. Como se houvesse uma dicotomia e fosse possível eu ser um sem ser o outro. Durante estes quatro anos, o que fiz foi trabalhar muito para transformar um discurso em ação e para que esta transformasse a realidade do público. Isso é o que faz um artista e foi o que fizemos a equipe da secretaria e eu.

Naquele janeiro, coloquei o capital simbólico de meus 35 anos de vida pública como trabalhador da cultura a um projeto político, no qual acredito e continuo engajado, onde quer que eu esteja, trabalhando para que continue a dar certo. Acredito porque este sempre foi também o meu projeto político, como artista: descentralizar, democratizar o acesso, construir redes, sistemas, ouvir, trabalhar coletivamente.

A praxe seria agora prestar contas de tudo que fizemos. Mas seria tedioso, porque muito foi feito. Muito mais do que permitia nossa estrutura frágil e nosso pequeno orçamento – apesar de ser o segundo maior orçamento para a Cultura de todos os estados do Brasil. E se fizemos tanto é porque contávamos com uma equipe que era um time dos sonhos: o time que qualquer secretário de cultura do mundo sonharia em ter. Estiveram comigo Pola, Angela, Ivana, Paiva, Gica, Bira, Fred, Hirton, Vanda, Bete, Romulo, Paulo Henrique, Monique, Moacir, e foram chegando outros ou já estavam e foram se incorporando, entendendo, acreditando, comprando a briga, arquitetando e construíndo uma revolução. Neuza, Bia, Daniel, Patrícia, Solange, Everaldo, Troi, Marcos, Dulce, Sérgio, Samyra, Bruna, Vanderlei, Ciro, Lúcia, Daniele, Olímpio, Dora, Sofia, Vera, Olga, Vanderson, Taiane, Ingrid, Cyntia, Iuri, Shirley, Gil, Ivonete e muitos outros e os mobilizadores e os representantes territoriais e os mais de três mil funcionários que não pouparam esforços pelo nosso projeto. Pena que alguns poucos não tenham se incorporado a ele porque não entenderam, não acreditaram, não quiseram comprar a briga ou mesmo porque não quiseram que desse certo. Mas deu.

Lamento que neste time eu não tenha podido contar com a colaboração de Cristina Castro. Perdeu a Bahia a competência de seu talento como artista, produtora e gestora. Eu tive que me contentar com a melhor parte: seu amor, paciência, tolerância e força.

Portanto, ao invés de um relatório, prefiro dizer apenas que trabalhamos orientados pelo conselho de Makota Valdina ao governador, no dia da posse do seu primeiro mandato: “veja as árvores, elas dão frutos porque têm raízes. Fortaleça as raízes que os frutos virão.” Foi o que foi feito. Os frutos estão aí. Agora, é colher, distribuir e espalhar as sementes. Alimentar novas raízes e tornar a ver os frutos brotarem.

Para isso deslocamos o olhar para os 26 territórios de identidade, para os 417 municípios, para os 14 milhões de cidadãos baianos, todos eles produtores culturais, todos com direito constitucional de acesso à cultura, como à educação e à saúde. Não é possível se pensar em políticas públicas para a Cultura cujo centro sejam os artistas e não os cidadãos. É como se Educação tivesse como meta atender aos professores e a Saúde aos médicos. Todos eles – professores, médicos, artistas – são agentes das políticas do Estado para promover o desenvolvimento e bem estar da população. E não pode ser de outra forma.

Albino, a Secretaria da Cultura, tem três grandes desafios, neste segundo mandato do governador Jaques Wagner: aproximar-se mais da Educação, para que a musculatura desenvolvida pela produção cultural baiana tenha eco e retorno; preparar o estado para que o legado da copa, no campo da engenharia do espetáculo, seja estruturante para nossa economia; e consolidar muito do que foi feito, começando pela aprovação da Lei Orgânica da Cultura, que está na Casa Civil, e a seguir, cuidando da reestruturação da secretaria para que ela esteja apta a atender de fato à Cultura baiana em todas as suas dimensões. Isso, como a reurbaização da Rocinha, não foi possível fazer.

Cabe a você agora levar adiante essa jovem secretaria, de apenas quatro anos, Albino. É pública a minha adimiração pelo seu pensamento, sua competência e seu trabalho. Como é público o meu respeito e carinho à sua pessoa. Conte comigo como amigo e peão, no que for preciso.

É com orgulho que agradeço o apoio e a confiança do Governador Jaques Wagner. Entendo que ele reconhecia em nosso trabalho as diretrizes de seu governo e as orientações que nos deu, na primeira reunião do secretariado: que trabalhássemos na instalação deste Estado, republicano e democrático, que promove o bem estar de todos a partir de um desenvolvimento pautado em valores maiores que o monetário. E esta é a Bahia que temos agora.

Devo dizer que o mesmo apoio e confiança que tivemos do governador, recebemos de todo o Governo. Agradeço portanto a todos os secretários e suas equipes e, mais particularmente, aos da Fazenda, do Planejamento, da Administração e a seus técnicos, pela sensibilidade com que a área sempre trataram as questões da Cultura. Assim como agradeço também ao Legislativo.

Importante também dizer que o alinhamento com o Ministério da Cultura e o apoio dos ministros Gil e depois Juca, como de todos daquele ministério, que foi um divisor de águas na política brasileira, foram fundamentais para a construção de nossas políticas e do pacto federativo na área da Cultura.

Também é importante agradecer a todos os prefeitos da Bahia, especialmente àqueles que estiveram mais próximos e entenderam nosso projeto. E aos dirigentes municipais da cultura, por todo o trabalho que fizemos juntos mas, principalmente, pela criação da Associação dos Dirigentes Municipais da Cultura que, tenho certeza, vai mudar o cenário das políticas municipais da Bahia.

Por fim, agradeço também aos mais de 100 mil baianos que participaram das conferências de Cultura e a todos os artistas e cidadãos produtores culturais, pelos conselhos, críticas e elogios à nossa gestão, porque ajudaram a nortear e fortalecer nosso caminho.

É engraçado: agora volto para o meu lugar de artista, de onde nunca saí, e saio do lugar de político, coisa que um artista não deixa nunca de ser.

 Marcio Meirelles

 Salvador, 23 de janeiro de 2010


 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Confira materia sobre indicações de Bença ao prêmio Braskem no site da Cena Lusófona

A Cena Lusófona – Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral – existe desde 1995, com o objectivo de dinamizar a comunicação teatral entre os países de língua oficial portuguesa.


A partir da ideia inicial de realizar um festival ou algo que tivesse idênticas características, configurou-se um programa mais vasto de cooperação teatral, com um alcance maior e mais complexo do que o simples intercâmbio de espectáculos.

Hoje o programa Cena Lusófona articula-se num conjunto diversificado de projectos: formação, co-produções, circulação de espectáculos, infra-estruturas teatrais, investigação, dramaturgias, debates e conferências, exposições, edições, programas inter-disciplinares, programas institucionais e de cooperação.

Enquanto estrutura organizada e com autonomia, a Cena Lusófona surgiu em meados de 1996. Cerca de duas dezenas de pessoas – encenadores, actores, cenógrafos, técnicos, antropólogos e arquitectos de cena – criaram, então, uma organização devotada ao intercâmbio teatral na comunidade lusófona. A nova estrutura herdava o nome e a pequena história da experiência bem sucedida, ensaiada em 1995, ainda no âmbito governativo, que acabou por se tornar uma referência para o futuro. A sua sede é na cidade portuguesa de Coimbra.
 
Veja link da materia sobre Bença  http://www.cenalusofona.pt/cenaberta/detalhe.asp?id=655&idcanal=1

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Bando de Teatro Olodum leva cultura engajada para o palco

O grupo teatral mais negro do país comemorou 20 anos de estrada com encenação de peça

que faz reflexão sobre o respeito aos mais velhos.


Por Lúcia Rodrigues


Salvador, Bahia, 2010. Em tempos de xenofobia e racismo é da capital mais negra do país que emerge um grito de resistência contra essas formas de fascismo. Como o antepassado, Zumbi dos Palmares, que entrou para a história ao libertar seu povo do jugo opressor, o Bando de Teatro Olodum levanta sua voz e traz para o palco mais do que uma nova forma de interpretação, coloca na ribalta uma estética negra de se fazer teatro.

Essa forma revolucionária de atuação, que acaba de completar 20 anos de estrada, já revelou

para as telas o ator Lázaro Ramos, mas mais do que a pretensão de se transformar em celeiro de novos astros, o Bando quer dar voz àqueles que sempre estiveram alijados dos holofotes.

“A gente morava em uma cidade com maioria negra absoluta e não havia negros no palco, não havia uma dramaturgia negra”, relembra o diretor teatral Márcio Meirelles, um dos precursores do grupo.

Meirelles, que hoje está à frente da pasta da Cultura do Estado da Bahia, explica que o nome

da companhia teatral, que nasceu de uma parceria com o grupo de percursionistas do Pelourinho, foi uma forma de demarcar território em uma sociedade em que clivagem étnica é forte.

“Foi uma provocação. Bando é uma palavra pejorativa, um ajuntamento de marginais. Quisemos assumir justamente que o negro é perigoso quando tem uma arma. Porque a sociedade sabe onde colocou o negro e sabe que um dia ele não vai ficar no lugar onde está e que vai avançar de uma forma pacífica e de uma forma violenta também. Então quando se tem uma arma como a palavra e se está no palco, aí a gente passa a ser realmente perigoso”, enfatiza.

Além do conteúdo político, o secretário da Cultura revela que o nome do grupo também fez

um contraponto com a banda do Olodum. “Bando e banda foi uma brincadeira e ao mesmo tempo, uma provocação política.”

Hoje, o Bando não está mais ligado à banda do Pelô, cada um trilha carreira solo, se é que se

pode classificar assim coletivos. Ambos, no entanto, têm a mesma origem: emergiram da vontade de um povo de externalizar sua cultura.

No caso do Bando, seus atuais 18 atores e dois músicos vieram de uma rede de teatro amador e de bairro. “Alguns vieram de um grupo de teatro gerado dentro do movimento negro, que era mais de militância política do que de estética. Outros não tinham consciência de que eram negros e de que existia racismo. Eram alheios a isso e foram cobrados pelos companheiros que tinham essa consciência. Essa convivência foi dando ao grupo uma coesão nessa militância, que agora é parte do nosso trabalho”, frisa Meirelles, que não é afrodescendente.

O grupo carrega na bagagem de espetáculos, sucessos como Cabaré da Rrrrrraça e Ó Paí, Ó, que foi transformado posteriormente em filme e seriado para a televisão. Apesar da experiência bem sucedida do grupo e de um relativo retorno financeiro de bilheteria e direitos autorais, viver de teatro no Brasil ainda é uma tarefa difícil. Alguns artistas do Bando dividem o palco com outra atividade profissional. “Tem um que trabalha no almoxarifado de um hospital, outro é museólogo”, conta Meirelles.

“Não tem uma grana certa, por isso, a gente está sempre no palco para poder ter bilheteria”, explica Rídson Reis, de 22 anos de idade e cinco de Bando. O mais jovem ator da companhia

teatral divide seu tempo entre o tablado e o terceiro semestre do curso de engenharia civil que frequenta na Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Ele sonha, no entanto, em poder viver só com o que recebe por sua arte.

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