ÁFRICAS NA SENZALA DO BARRO PRETO – ILÊ AIYÊ
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O mestre do Butô e o Bando
O mestre do Butô, Tadashi Endo, desembarcou em Salvador, no último domingo de fevereiro para iniciar oficina com o Bando de Teatro olodum. O processo seguiu do dia 27 de fevereiro à 07 de março e contou com os diretores, Márcio Meirelles e Chica Carelli, o diretor musical, Jarbas Bitencourt e o coreógrafo, Zebrinha.
foto: Jorge Washington
Tadashi iniciou "namoro" com o Bando na sua vinda ao Vivadança, Festival Internacional de Dança o ano passado. A relação começou depois do mestre assistir ao espetáculo Cabaré da Rrrrraça e ficar impressionado com a energia dos atores. Meirelles decidiu fazer essa parceria com Tadashi, como o mestre queria trabalhar com algum grupo no Brasil, decidiu que seria o Bando. A oficina é uma etapa de um espetáculo do Bando para o segundo semestre em parceria com Tadashi Endo. O grupo recebeu o Prêmio Miriam Muiniz de Teato - FUNARTE para essa montagem e conta com a Avianca Linhas Aéreas.
Essa não é a primeira vez que o Bando agrega em seu grupo outro artista. Em sua trajetória o grupo já trabalhou em conjunto com Heiner Goebles, Hendrik Lorenzen, Vera Holtz, Monique Gardenberg, entre outros.
Para o ator Ridson Reis, trabalhar com Tadashi está sendo um grande aprendizado."Passamos a valorizar a mais as coisas que estão perto da gente. Ter um olhar mais apurado para o que está ao nosso redor. Para quem não é dançarino aprendemos a dar mais valor ao nosso jeito de se mover."
foto: jorge Washington
A atriz Valdinéia Soriano também fala sobre o processo: " é um desafio trabalhar só dança sem nem saber o que é o texto. É tudo muito novo. Não temos o elenco inteiro e com a difilcudade da língua (Tadashi fala em inglês com o grupo) a atenção é redobrada. A junção do afro e o oriental que também teve suas mazelas, suas dores. tudo isso é muito forte."
foto: Jorge Washington
Para o Bando não havia momento mais propício. É mais um desafio para o grupo - do que queremos dizer, da dança, ou melhor, esse novo jeito de dançar. Esse mergulhar profundo dentro de cada um de nós. Ontem foi o último dia dessa primeira etapa e o mestre afirmou que "não" falávamos a mesma língua, mas ele sentia que conhecia cada um de nós. Nos despedimos com um até breve. Tadashi Endo retorna breve para a montagem que tem estréia prevista para setembro.
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Lázaro Ramos recebe prêmio Anu 2012 no Teatro Municipal
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Carnaval 2012, "que estranho, heim!!"
Por Auristela Sá
Fotos: Renata Dias
Jorge Washington, como costumamos falar, correu coxia - participou de uma maratona saiu no Alerta Geral e Alvorada (blocos de samba) no Araketu, no Ilê Ayê e ainda foi para Maragojipe, mas admite que fez tudo meio que por osmose. "O carnaval de Salvador está meio sem atrativos, sem pegada, tem uma coisa estranha no meio. "Em Maragojipe as portas se abrem, tem o bloco das caretas, todo mundo faz sua fantasia. Os blocos se juntam na praça e depois se separam na maior brincadeira. Não é esse carnaval enlatado.
Magary Lord - "colar de negão, luva na mão e o jeito Michael Jackson..." tive o prazer de conhecer Magary através de Jorge, procurávamos um cantor para fazer uma participação no espetáculo Cabaré e Jorge Washington trouxe o Lord. A química deu tão certo com o Bando que ele retornou umas três, quatro vezes. Sai literalmente atrás do trio elétrico do Araketu puxado por Magary Lord com alguns bandoleiros (Cássia, Valdinéia, Jarbas, Merry, Fábio, Ridson e Jorge. Música de preto cantada por preto. Circula Magary!
Apaixonada que sou pelo Carnaval, tentei acompanhar tudo que acontecia na cidade inclusive pela televisão (o que é uma missão difícil para a tv ,não é mesmo?!).
Fui ver coisas pontuais como os shows do pelourinho, um pouco da avenida e, talvez a melhor coisa que vi, a mudança do Garcia. Fui com um amigo que foi fotografar e meu olhar se abrilhantou. Gente fantasiada, as casas abertas, os pequenos blocos. Fui a um camarote - o Camarote da Rainha. D. Judite, mãe de um amigo que recebe na sua casa todos que passam com o coração repleto de sorrisos e a famosa feijoada, deliciosa. Obrigado D. Judite!
A mudança e o camarote de D. Judite fez meu carnaval mais feliz e menos estranho.
Para Jarbas Bittencourt o carnaval foi bem diferente: " Sai muito para rua. foi bacana, mas foi tão estranho quanto o momento atual que a cidade vive. O carnaval é o espelho fiel da cidade . Precisamos rever muita coisa".
Quanto à mim só resta fazer coro para Magary: "que estranho"
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Já é Carnaval, cidade!!!
Por Auristela Sá
Esses últimos dias encontrei uma Salvador normal.
Fim dos dias estranhos!!
Normal, entre aspas, o clima do carnaval já impera na cidade. Engarrafamentos horrorosos, finalização de decoração, entrega de abadás e outras coisitas mais...
Mesmo que a gente não queira, esse clima vai nos contagiando e ninguém sabe explicar, só nós mesmo: brasileiros, nordestinos, baianos que com todas as nossas mazelas, temos toda alegria e suingue que faz contagiar não só o continente, mas todo o Globo.
Amo carnaval por esse espírito de liberdade, de brincadeira que provoca nas pessoas. Nunca vou esquecer minha primeira lembrança do Carnaval. Na verdade, foi micareta, que são os carnavais menores no interior. Todos de mortalha, pés descalços para pular. Mais tarde em Salvador vi a praça Castro Alves lotada, o trio puxando o bloco e todos de mamãe sacode na mão. No último dia do carná, vi o encontro de trios. Imagem inesquecível!
Perguntei há alguns colegas artistas sobre o seu carnaval: Ridson, disse não saber, para logo depois dizer que vai passar uns dias na ilha, quer saí um dia nos Muquiranas (olha que graça!)e seguir Magary Lord que sai um ou dois dias sem corda. O diretor Meirelles (Márcio) fala que sua primeira lembrança é contaminada por uma foto. Ele pequenino vestido de príncipe e suas tias e mães se arrumando para o baile. Chica Carelli foi rápida lembra de Moraes cantando "Eu sou um carnaval em cada esquina, do seu coração...", afirmando que era o hit da época. Jarbas lembra que quando criança morava numa rua em que ficavam os trios Saborosa e Dodô e Osmar, e ele ficava fascinado com aqueles caminhões. Em seguida afirmou que se tornou músico por isso.
Obrigado Dodô e Osmar. Obrigado Saborosa!
Val (Valdinéia) lembra dos tios se arrumando com mortalhas e caretas (máscaras) assustando os meninos na rua para só depois descer para avenida.
Já é carnaval - os dias estranhos se foram mais ainda são dias difíceis. Vamos descer para avenida, ou melhor, para os circuitos carregados de paz, amor e só alegria.
Preparem as purpurinas!!!!
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Cabaré da Rrrrraça
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Théâtre du Soleil, O Bando, A Outra, Companhia Novos novos, Nata, Breve e muito mais....
Maurice Durozier da companhia Théâtre du Soleil ministra uma oficina, pela manhã, para atores dos grupos residentes do Teatro Vila Velha: o Bando, A outra, companhia Novos Novos, Companhia Nata de Alagoinhas, e para os atores dos espetáculos Breve, além de Zeca de Abreu, Luis Bandeira, entre outros.
Maurice, Ricardo, Ewerton e Ridson (indicações e sorrisos)
foto: Jorge Washington
Nessa oficina Maurice trabalha seguindo os métodos utilizados pela Companhia du Soleil para criação dos espetáculos.
Para Jorge Washington, que está como ouvinte e fotógrafo, a oficina está uma delícia. "Tenho aprendido muito como ouvinte. Maurice tem uma capacidade de instigar o ator, mexer, mostrar para ele que cada ação tem o seu tempo. Nós temos uma urgência de resolver logo a cena. Ao longo dos dias, vejo que não, tudo tem o seu tempo. O tempo de chegar, se instalar, mostrar o personagem. Viver cada momento, de verdade...só alegria."
Ridson num momento de concentração
foto: Jorge Washington
Zeca de Abreu, (atriz e diretora) com minha pergunta sobre a oficina de Maurice depois de um longo tempo em silêncio, deu um suspiro e, sobre a oficina, falou ser um presente para ela. "Maurice vem com uma generosidade, uma paixão. É um amor pelo fazer teatral , uma coisa que Márcio Meirelles tem também, um jeito de falar que nos enfeitiça e para o ator isso é maravilhoso, porque no pique do dia a dia o fazer teatral se perde um pouco".
Maurice e Zeca - orientações para a cena
foto: Jorge Washington
Para mim, a oficina veio num momento propício. Veio de um namoro antigo do Bando de Teatro Olodum com Théâtre du Soleil (Maurice) que só agora é consolidado.
O teatro é também sinônimo de resistência, revolução. Fazemos então a nossa revolução nesses dias estranhos.
Cláudia -a atriz veio especialmente de Brasília para a oficina
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Maurice Durozier ministrará workshop baseado em Shakespeare
Maurice Durozier no Teatro Vila Velha
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Cabaré da Rrrrraça, últimas semanas!!!!!!!!
Olha quem veio prestigiar Cabaré da Rrrrrraça: Monique Gardenberg, diretora do filme e da série para televisão, Ó Paí, ó!
De passagem pela cidade a cineasta assistiu mais uma vez o espetáculo e matou a saudade dos atores no camarim.
E você, ainda não viu?!!
na foto: Merry Batista, Cássia Valle, Monique Gardenberg e Auristela Sá
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Cabaré da Rrrrraça no Amostrão do Teatro Vila Velha
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Cabaré da Rrrrraça no Amostrão do Teatro Vila Velha
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Boas Festas e Feliz 2012!!!!!!!!
Por Auristela Sá
Dezembro e ficamos naquele corre e corre de final de ano, fechando trabalhos e, claro se preparando para as festas!!!
Final de ano e a sensação é que o tempo pasou voando.
O Bando não fez uma montagem nova em 2011 e Bença a nossa última montagem ficou pouco tempo em cartaz Estreou em novembro de 2010. Apresentamos numa temporada em maio e também 2 apresentações no FIAC - Festival Internacional de Artes Cênicas. Precisamos circular mais com o espetáculo que fala sobre os mais velhos. O festival foi muito bom. Para mim, uma dos melhores fatores foi o circuito pela cidade: tinha espetáculo na lapinha, na cidade baixa...
Apresentamos Cabaré da Rrrrraça em algumas temporadas durante o ano e fianlizamos o projeto "Outras Áfricas" com apresentações e oficinas em Ipirá e Maragojipe com um público de mais 2 mil pessoas. No mês de novembro, produzimos junto com o Teatro Vila Velha o Festival A cena ta preta com espetáculos e seminários. Roberta Rodrigues (atriz premiada e integrante do grupo Nós do Morro) veio diretamente do Rio de Janeiro para a mesa redonda e Francisco Pellé (produtor, diretor e ator do grupo Harém) veio do Piauí. Também gravamos o dvd do espetáculo Áfricas e participamos do Festival de teatro de Recife.
Para o nosso diretor, Márcio Meirelles, o ano de trabalho ainda não acabou. Nesse momento ele se encontra nas Minas Gerais com o grupo Galpão, falando de políticas públicas para o teatro e fechando parcerias.
Temos o hábito de fazer aquele balancete de final de ano, computando tudo o que fizemos e promessas para o próximo ano: vou fazer mais atividade física, parar de comer carne vermelha, aprender a tocar violão, um curso, ler mais, são exemplos de promessas que fazemos de um ano para um outro.
Lembro de um reveillon que passei na casa de uma amiga e a mãe dela - uma pessoa super amável - pediu que escrevessemos coisas que não gostamos durante o ano e coisas que desejamos para o ano próximo. Em seguida ela pegou um tacho e pediu que jogássemos nele e depois colocou fogo. Foi o máximo!!!
Sobre todos os pedidos para o próximo ano que estavam na mão dela, indaguei sobre o que ela faria. Ela disse, sorrindo: "vou pendurar numa árvore". Com aquele jeito carinhoso que só uma mãe tem e o olhar da sabedoria.
Olha aí uma sugestão de um ritual de ano bom.
Vamos cuidar das nossas árvores!!!!
UM FELIZ NATAL E UM ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE, PAZ E PROSPERIDADE
Bando de Teatro Olodum
Márcio, Chica, Zebrinha, Jarbas,Valdinéia, Jorge Washington, Auristela, Rejane, Gerimias, Cássia, Leno, Elane, Ednaldo, Rivaldo, Clésia, Cell, Merry, Sérgio, Jamile, Ridson, Arlete, Fábio, Telma, Cecília, Maíse (vj), Nine, Maurício(músico), Maurício (do som), Marcos (Dedé da iluminação), Eduardo (iluminação)
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RACISMO OFICIAL
Fala Márcio Meirelles...
Recebi este imeio de Hilton Cobra, diretor da Cia dos Comuns, do Rio de Janeiro, com os textos seguintes em anexo: o primeiro de Ferreira Gular, publicado na Folha Ilustrada de 4/12/2011, sobre Literatura Negra, negando-lhe a existência. E, em seguida, as respostas do escritor Cuti e do escritor Francisco Maciel.
Fala Cobra:
Abertura do I Fórum de Performance Negra
Gente negra brasileira,
Ferreira Gular, mais um que sai do armário. Me deu vontade de escrever algo. Mas a resposta do Cuti é tão brilhante que me intimida (mas vou tentar). Quando crescer eu quero ser igual a ele. Vale ressaltar que esse homem (Gular) foi Presidente da Funarte. E deve ter presidido aquela instituição pública com essa cabeça reduzida. E é aí que reside um dos focos do racismo institucional. Enquanto a cultura brasileira for comandada por esses biltres e os marketings das empresas públicas ou privadas, nossos espaços estarão absolutamente reduzidos. Temos que enfrenta-los de frente.
COBRA
Preconceito cultural
Ferreira Gullar
Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências europeias; não se pode afirmar que faziam ‘literatura negra’
De alguns anos para cá, passou-se a falar em literatura negra brasileira para definir uma literatura escrita por negros ou mulatos. Tenho dúvidas da pertinência de uma tal designação. E me lembrei de que, no campo das artes plásticas, em começos do século 20, falava-se de escultura negra, mas, creio eu, de maneira apropriada.
Naquele momento, a arte europeia questionava o caráter imitativo da linguagem plástica e descobria que as formas têm expressão autônoma, independentemente do que representem, ou seja, não é necessário que uma escultura imite um corpo de mulher para ter expressão estética, para ser arte.
As esculturas africanas, trazidas para a Europa pelos antropólogos, eram tão “modernas” quanto as dos artistas europeus de vanguarda, já que fugiam a qualquer imitação anatômica. Foram chamadas de arte negra não apenas porque as pessoas que as faziam eram da raça negra e, sim, porque constituíam uma expressão própria a sua cultura.
Não é o caso da literatura. A contribuição do negro à cultura brasileira é inestimável, a tal ponto que falar de contribuição é pouco, uma vez que ela é constitutiva dessa cultura.
O Brasil não seria o país que o mundo conhece -e que nós amamos- sem a música que tem, sem a dança que tem, criada em grande parte pelos negros.
Ninguém hoje pode imaginar este país sem os desfiles de escolas de samba, sem a dança de suas passistas, o ritmo de sua bateria, a beleza e euforia que fascinam o mundo inteiro.
Uma parte dessas manifestações artísticas é também dos brancos, mas constituem, no seu conjunto, uma expressão nova no mundo, nascida da fusão dos muitos elementos de nossa civilização mestiça.
Certamente, os estudiosos reconhecem que, sem o negro e sua criatividade, seu modo próprio de encarar a vida e mudá-la em festa e beleza, não seríamos quem somos. Mas teria sentido, agora, pretender separar, no samba, na dança, no Carnaval, o que é negro do que não é? E já imaginou se, diante disso, surgissem outros para definir, em nosso samba, o que é branco e o que é negro?
E, em função disso, se iniciasse uma disputa para saber quem mais contribuiu, se Pixinguinha ou Tom Jobim, se Ataulfo Alves ou Noel Rosa, se Cartola ou Chico Buarque?
Felizmente, isso não vai acontecer, mesmo porque, nesse terreno, ninguém se preocupa em distinguir música negra de música branca. O que há é música brasileira.
Mas, infelizmente, na literatura, essa descriminação começa a surgir. Não acredito que vá muito longe, uma vez que é destituída de fundamento, mas, de qualquer maneira, contribuirá para criar confusão.
Falar de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura.
Consequentemente, foi aqui que tomaram conhecimento dela e, com os anos, passaram a cultivá-la.
Se é verdade que, nas condições daquele Brasil atrasado de então, a vasta maioria dos escravos nem sequer aprendia a ler – e não só eles, como também quase o povo todo -, com o passar dos séculos e as mudanças na sociedade brasileira, alguns de seus descendentes, não apenas aprenderam a ler como também se tornaram grandes escritores, tal é o caso de Cruz e Souza, Machado de Assis e Lima Barreto, para ficarmos nos mais célebres.
Cruz e Souza era negro; Machado de Assis, mulato, mas tanto um quanto outro foram herdeiros de tendências literárias europeias, fazendo delas veículo de seu modo particular de sentir e expressar a vida. Não se pode, portanto, afirmar que faziam “literatura negra” por terem negra ou parda a cor da pele.
Pode ser que os que falam em literatura negra pretendam valorizar a contribuição do negro à literatura brasileira. A intenção é boa, mas causa estranheza, já que o Brasil inteiro reconhece Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Pelé como um gênio do futebol e Pixinguinha, um gênio da música.
Contra toda evidência, afirmam que só quando se formar no Brasil um grande público afrodescendente os escritores negros serão reconhecidos, como se só quem é negro tivesse isenção para gostar de literatura escrita por negros. Dizer isso ou é tolice ou má-fé.
Cuti no I Fórum de Performance Negra - Foto: Marcio Lima
A EMPÁFIA DO POETA GULLAR
Cuti
Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos de quem demonstra sua completaignorância do assunto, má vontade e racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar, com o título “Preconceito cultural”, no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.
O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque, deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho daquela ave, e que se a “a vasta maioria dos escravos nem se quer aprendia a ler”, como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta contra a opressão racista.
Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não. Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos, vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas; A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas; Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar “foram herdeiros de tendências literárias européias”, e, portanto, “não se pode afirmar que faziam literatura negra”, o que dizer de Lépold Senghor e Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria outras influências do texto literário, tais como a experiência existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas influências.
A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o “lugar do negro” que o branco racista determinou, um lugar que serviu de “contribuição” para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poetachama de: “nossa civilização mestiça”. Mas, pelo visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto, lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser “o sorriso da sociedade”. Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra. Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.
A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um “problema”. Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós.
Gullar diz ser “tolice ou má-fé” se pensar um grande público afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro? Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural, próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o imbecil parlamentar racista Bulsonaro.
Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em março de 2002, com o título “Racismo: crime ontológico”, fazendo sua autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a questão racial, argumenta que o “nó do problema” estaria “no aspecto ontológico”, e prosseguindo: “está no drama, para o negro, de ter de aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao grupo branco.” Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio elucidativo do assunto, intitulado “A patologia social do branco brasileiro”.
A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A crítica binária, baseada no Bem X Mal, está enfraquecida.Um dos propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta: “Não tem cabimento para quem, cara-pálida?” A sua descrença no que chama de “descriminação” na literatura, crendo que ela não “vá muito longe” e gera “confusão” é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.
Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam historicamente os negros não são só traços físicos, como quer o articulista, mas representações simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira.
Não dá mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a garrafa.
Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.
O leninismo literário do poeta oficial
Francisco Maciel
Senhor Editor,
Li com espanto o a crônica “Preconceito cultural”, do poeta Ferreira Gullar, Prêmio Jabuti deste ano e considerado o maior poeta brasileiro vivo. Como ele pode escrever a seguinte frase: “Falar de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura.”
Caramba! Era só o poeta ir no Google, o pai dos cyberburros: “Literatura oral é a antiga arte de exprimir eventos reais ou fictícios em palavras, imagens e sons. Histórias têm sido compartilhadas em todas as culturas e localidades como um meio de entretenimento, educação, preservação da cultura e para incutir conhecimento e valores morais. A literatura oral é frequentemente considerada como sendo um aspecto crucial da humanidade.” Os seres humanos têm uma habilidade natural para usar comunicação verbal para ensinar, explicar e entreter, o que explica o porquê da literatura oral ser tão preponderante na vida cotidiana”.
Ou então, melhor ainda, consultar o primeiro volume do livro Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica – Os precursores, organizado por Eduardo de Assis Duarte, publicado pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais neste ano, e conhecer o Mestre Didi, fundador da Sociedade de Estudos da Cultura Negra do Brasil (1974), da Sociedade Cultural Religiosa Ilê Asipa (1986) e do Instituto Nacional da Tradição e Cultua Afro-Brasileira (1987). As esculturas do Mestre Didi, consideradas como recriações e interpretações pessoais dos símbolos dos orixás, já foram expostas em museus e galerias de arte de várias países. Ele participou em 1996 da XXIII Bienal de São Paulo e em 1999 recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia.
Mas vamos ao que interessa. “Com a sua literatura, Mestre Didi contou casos, narrou a história da cultura africana na Bahia e registrou antigos Itans, que são contos que fazem parte do patrimônio sagrado da tradição nagô. Baseadas na oralidade, tais narrativas ganham a chancela do texto impresso, sendo publicado no Brasil e no exterior” (ob. cit., p. 474).
Mestre Didi pertence à tradição dos griots, contadores de histórias, que vivem ainda hoje em muitos lugares da África ocidental, incluindo Mali, Gâmbia, Guiné, e Senegal, e estão presentes entre os povos Mandê ou Mandingas (Mandinka, Malinké, Bambara, etc.), Fula, Hausa, Songhai, Tukulóor, Wolof, Serer, Mossi, Dagomba, árabes da Mauritânia e muitos outros pequenos grupos. Lembro aqui o romance que Os Mandarins, que narra as vidas pessoais dos membros de um grupo de intelectuais franceses no fim da Segunda Guerra Mundial, quase recebeu o título de Les Griots.
Escreve Ferreira Gullar: “Pode ser que os que falam em literatura negra pretendam valorizar a contribuição do negro à literatura brasileira. A intenção é boa, mas causa estranheza, já que o Brasil inteiro reconhece Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Pelé como um gênio do futebol e Pixinguinha, um gênio da música.” O fato que é Machado de Assis nunca foi reconhecido oficialmente como escritor negro. Nem Gonçalves Dias. Os únicos escritores negros de valor reconhecido sãoCruz Souza, porque era impossível pintá-lo de branco, e Lima Barreto, porque sempre se assumiu escritor negro. E os estudos do livro mostram que todos faziam literatura com consciência negra
No quarto volume do Literatura e Afrodescendência no Brasil – História, teoria, polêmica pode-se ler o estudo “A personagem negra na literatura brasileira contemporânea”, de Regina Dalcastagnè, Doutora em Teoria Literária pela UNICAMP. Sua pesquisa aborda 258 romances de autores brasileiros publicados entre 1990 e 2004 pelas “três editoras mais prestigiosas do país, segundo levantamento realizado junto a acadêmicos, críticos e ficcionistas: Companhia das Letras, Record e Rocco.” Uma segunda base de dado, usada como complemento e contraponto, reúne os 130 romance de autores brasileiros publicados em primeira edição entre 1965 e 1979 pela Civilização Brasileira.
“Foram publicados 80 diferentes escritores no primeiro período e 165 no segundo – em sua grande maioria homens, sendo que as mulheres não alcançaram um quarto total. Mas a homogeneidade racial é ainda mais gritante: no segundo período são brancos 93,9% dos autores e autoras estudados (3,6% não tiveram a cor identificada e os “não-brancos”, como categoria coletiva, ficaram em menos de 2,4%). Para o primeiro período, foram 93% de brancos e 7% sem cor identificada” (ob. cit., p. 312).
Buscar um público de leitores negros para uma literatura negra pode até ser “tolice ou má-fé.” Mas diante de um trabalho de 10 anos, fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidades brasileiras e seis estrangeiras, não pode ser descartado como “discriminação”. Se tivesse boa vontade, o autor do Poema Sujo reconheceria que tal esforço merece aplausos por dar visibilidade a uma produção literária que tem sido relegada aos cupins e sofre um “você não existe” de uma certa “silenciatura” brasileira. O fato dessa literatura ser negra não é um detalhe ou empecilho: é uma urgência, um reconhecimento, um testemunho. E não é um preconceito cultural: é uma luta cultural contra o preconceito.
Ressalvadas as diferenças, o projeto Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica tem pontos em comum com Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos, projeto capitaneado por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães, que reúne curtas-metragens realizados por jovens cineastas originários de comunidades carentes do Rio de Janeiro. É como se Cacá Diegues incorporasse Castro Alves, Jorge Amado: “Já falamos por vocês. Agora está hora de vocês botarem a boca no trombone e serem todos Pixinguinhas”.
Seria bonito ouvir isso do Ferreira Gullar. O poeta consagrado consegue ver boa intenção onde há busca de valorização e representação, mas vê estranheza na reivindicação de falar por si mesmo, ter voz própria e mostrar que, além de sambista e jogador de futebol, negros podem ser poetas e escritores.
Seria até uma força. Mas talvez seja pedir generosidade de alguém que encarna a luta pelo poder literário com um certo leninismo determinado e agressivo.
Sou autor do romance O primeiro dia do ano da peste (Estação Liberdade, 2001), que um repórter da Folha não gostou: marcou entrevista comigo e não veio. Faço parte antologiaEntre Dois Mundos (lançada também pela Estação Liberdade em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo). Lancei este ano um livro de poemas, Cavalos & Santos, justamente no dia do lançamento do Literatura e Afrodescendência, no dia 28 de fevereiro, na Biblioteca Nacional, no Auditório Machado de Assis.
Postado por Bando de Teatro em Cena às 12:25 0 comentários







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