terça-feira, 28 de junho de 2011

Milton Santos será homenageado hoje pelo Congresso Nacional

Deputado federal Luiz Alberto é proponente da sessão solene; morte de geógrafo baiano faz 10 anos
O intelectual, pesquisador, político, jornalista e geógrafo Milton Santos, que completará 10 anos de morte no próximo dia 24 de junho, será homenageado pelo Congresso Nacional brasileiro. A sessão em homenagem a um dos mais importantes intelectuais da história do Brasil será realizada no dia 28 de junho, às 10h, no plenário da Câmara dos Deputados em Brasília.
A sessão requerida pelo deputado federal baiano, Luiz Alberto (PT/BA), tem como objetivo realçar  a importância de Milton Santos para a sociedade brasileira. Será uma forma de repercutir no parlamento as contribuições do geógrafo para o país.
A mesa da sessão será composta pelo governador da Bahia, Jaques Wagner, a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Luiza Bairros, o ministro da Educação (MEC), Fernando Haddad, o presidente da Fundação Palmares, Eloi Ferreira de Araújo, do ministro das Relações Exteriores, Antônio de Aguiar Patriota, os reitores das Universidades de Brasília (UNB), do Recôncavo (UFRB) e da Bahia (UFBA), José Geraldo de Sousa Junior, Paulo Gabriel Nacif e Dora Leal Rosa; e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.
Representações diplomáticas dos países onde Milton Santos atuou como professor, pesquisador e consultor, no período de 1964 a 1978, também marcarão presença na sessão solene. A saber: França, Portugal, Espanha, Tanzânia, Guiné Bissau, Senegal, Costa do Marfim, Mali, Nigéria, África do Sul, Japão, Venezuela, Costa Rica, México, Canadá e Estados Unidos.
Na ocasião, outras entidades também prestarão homenagem a Milton Santos: o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, o prefeito de Brotas de Macaúba, na Bahia, Litercílio de Oliveira Jr, cidade onde o geógrafo nasceu; a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal, os movimentos pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas do Distrito Federal, os Institutos de Geografia, História, Sociologia e Ciências Sociais da UnB, os professores Fernando Conceição (grupo de pesquisa Permanecer Milton Santos, UFBA), Manoel Lemes (PUC/Campinas) e também de sua neta, Nina Santos, que representará a família durante a sessão.
Biografia
A história e trajetória política e intelectual de Milton Santos reafirmam a importância da sua luta por justiça e igualdade, e da participação de homens e mulheres negras na construção do país.
Nascido em 3 de maio de 1926, ao longo da sua vida, escreveu 40 livros, foi co-autor de dezenas de outros e publicou artigos, foi articulista e editor em jornais brasileiros importantes, como Folha de São Paulo, Correio Braziliense e jornal A Tarde, da Bahia. Na década de 90, ganhou prêmios como o “Estação Cultural” e o Vautrin Lud (considerado o Nobel da Geografia).
Milton Santos dedicou toda a sua obra ao entendimento das supra e sobre-estruturas formativas das desigualdades entre os homens e as sociedades humanas ao redor do mundo.
Suas colocações transbordaram o âmbito da Geografia para se espraiar por outros domínios e usos quando, no início dos anos 90, a partir da Europa (França), se organizou um movimento para se contrapor à irracionalidade do financismo global – que marcou a nova fase do capitalismo a partir dos anos 1970, travestido de “globalização”.
 O trabalho de Milton Santos serviu de inspiração para o que, hoje, veio a se constituir como Fórum Social Mundial, o qual foi convidado a se associar como fundador.

Fonte:
Mandato do deputado federal Luiz Alberto

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bando na Raça, Bença!

O pedido de bênção de crianças e dos mais jovens aos mais velhos é um costume que está desaparecendo, rapidamente, em especial nos grandes centros urbanos brasileiros. A maioria de pais acha "moderno" serem chamados de "você" e dispensa esse tipo de cumprimento e de relacionamento considerado arcaico. Desconhecem, porém, o que há de mais profundo no pedido de bênção, originado numa relação muito mais respeitosa com relação às próprias raízes, com a ancestralidade...
Leia mais no site  http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/155/artigo219415-1.asp  ou na edição da Revista Raça desde mês.

A Secretaria de Cultura do Espírto Santo promove debate sobre dramaturgia brasileira nesta sexta-feira (10)

A Secretaria de Estado da Cultura (Secult) promove nesta sexta-feira (10), às 19 horas, o debate “Dramaturgia Brasileira Contemporânea”. O evento será realizado no auditório da Biblioteca Pública do Espírito Santo Levy Cúrcio da Rocha (BPES), na Praia do Suá, Vitória. Participam do encontro dois diretores teatrais consagrados: o baiano Márcio Meireles, criador do Bando de Teatro Olodum; e o paulista Samir Yasbek, professor da Escola Superior de Artes Célia Helena, localizada em São Paulo.

Ambos os diretores estão no Estado participando da comissão julgadora de um dos editais de incentivo da Secult, que seleciona projetos culturais e concessão de prêmio para a residência de grupos de artes cênicas, nas áreas de teatro e dança.

O evento tem como objetivo debater a produção e circulação das artes cênicas no País nos últimos anos, por meio do relato dos próprios palestrantes. A entrada é franca, porém os interessados devem chegar com antecedência, pois o número de vagas é limitado. São 60 vagas disponíveis.


                                                                                     Márcio Meirelles
 
                                                                            

Nascido na Bahia, Márcio Meirelles é diretor teatral, cenógrafo e figurinista, inicialmente ligado às áreas de arquitetura e Belas Artes. Meirelles atua nos palcos desde 1972. Foi fundador do grupo Avelãz y Avestruz. Durante os anos de 1985 e 1986, assumiu a chefia dos núcleos de cenografia e figurino e de direção e elenco da TV Educativa da Bahia. Paralelamente, em 1986, criou o “Projeto Teatro” para a Fundação Gregório de Mattos.

No período de 1987 a 1991, assumiu a direção do Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia. No ano de 1990 criou, com Chica Carelli, o Bando de Teatro Olodum, que dirige até hoje. Em 1994, assumiu a direção artística do Teatro Vila Velha, em Salvador. Foi Secretário da Cultura do Estado da Bahia na gestão de 2007 a 2010.



Serviço

“Dramaturgia Brasileira Contemporânea”

Debatedores: Márcio Meireles e Samir Yasbek

Data: Sexta-feira (10)
Horário: 19 horas
Local: Biblioteca Pública do Espírito Santo
Endereço: Av. João Batista Parra, 165 - Vitória
60 vagas disponíveis
Telefone: (27) 3137 9349.
E-mail: sebp@secult.es.gov.br

Informações à Imprensa:

Assessoria de Comunicação/Secult
Larissa Ventorim
Texto: Letticia Müller - estagiária
3345 9273 / 9902 1627
comunicacao@secult.es.gov.br
http://www.secult.es.gov.br/

sábado, 4 de junho de 2011

JORGE WASHINGTON, ATOR DE Ó PAÍ Ó, ELOGIA LÁZARO RAMOS, DIZ QUE NÃO QUER IR PRA GLOBO E POLEMIZA: "BRASIL É RACISTA"

Por Wallace Oliveira  para o blog SALVADOR COM H 

Fotos: Contigo!, Laércio Brasil e divulgação (nas duas últimas fotos, com Lázaro Ramos e entre Márcio Meirelles e Carlinhos Brown)


- Ele começou a atuar no grupo de teatro do Calabar, comunidade carente encravada na zona nobre de Salvador e hoje pacificada pela Polícia Militar. Em 1978, fez o IV Curso Livre de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba), com direção do renomado Deolindo Checcucci. Quando já estava desistindo do teatro comercial proposto na década de 80, viu ocasionalmente num jornal que o diretor e ex-Secretário Estadual da Cultura Márcio Meirelles havia se juntado ao Olodum para montar um grupo de teatro negro pautado na cultura afro.


E assim, o ator Jorge Washington, ex-militante do Movimento Negro, ingressava naquele que seria o passaporte mais importante da sua carreira artística: o Bando de Teatro Olodum, celeiro de grandes atores (a exemplo de Lázaro Ramos) e epicentro de uma das mais importantes movimentações artísticas do Brasil. No palco do velho TVV (Teatro Vila Velha), Jorge e seus colegas de Bando vivem até hoje grandes emoções, traduzidas em cada aplauso, em cada encenação, em cada atuação na qual eles dão vida aos dilemas do povo negro.


Depois de mais de 19 anos de Bando, Jorge se orgulha de ter participado de todas as montagens do grupo. E foram tantas: desde o Auto de Natal sobre o cotidiano de moradores do Pelourinho - que mais tarde se transformou em “Essa é a Nossa Praia”-, passando pelo polêmico “Cabaré da RRRaça”, espetáculo estreado em 1997 trazendo uma visão crítica sobre o racismo no Brasil; até o infanto-juvenil “Áfricas”, desenvolvido a partir da necessidade do Bando no diálogo com as crianças e dirigido por Chica Carelli...


Tamanho reconhecimento no teatro seguiu o percurso natural do cinema e da TV: enquanto a experiência na Sétima Arte o levou a vários sets de gravações, a TV lhe proporcionou acesso ao grande público depois de incorporar o personagem Mattias em Ó Pai Ó, um sucesso do cinema estendido a seriado de TV pela toda-poderosa Vênus Platinada (mais conhecida como Rede Globo). Mattias, personagem  tanto do filme como do seriado, é um vendedor ambulante de cafezinho, militante do Movimento Negro e casado com a baiana de acarajé.


Prestes a retornar às telonas com os filmes “O Homem que Não Dormia”, de Edgard Navarro (gravado no distrito de Igatu, na Chapada Diamantina, Bahia) e “Jardim das Folhas Sagradas”, de Póla Ribeiro (com estréia prevista para outubro de 2011), o combativo e politizado Jorge Washington concedeu entrevista exclusiva ao SalvadorcomH, na qual elogia Lázaro Ramos, fala sobre as experiências de Ó Pai Ó no cinema e TV, rotula o Brasil de racista e polemiza: “ator negro tem que se comportar como negro”.


SalvadorcomH - O Bando do Teatro Olodum (BTO) é, hoje, a sua grande fonte de inspiração e sobrevivência, mas, do início da sua trajetória até hoje, o caminho percorrido deve ter sido difícil. Em algum momento você pensou em desistir da profissão?
Jorge Washington (Jorge) - Jamais pensei em desistir. Essa palavra não existe no meu dicionário... Quando eu comecei a fazer teatro no Calabar, já recebi uma carga de inspiração, de militância, de combatividade, que me deram régua e compasso para não desistir jamais.


SalvadorcomH - O Bando foi criado em 1990 como parte integrante do bloco afro Olodum, mas se desgarrou dele e foi bater asas no Teatro Vila Velha, um dos espaços mais emblemáticos da cultura brasileira, sobretudo por ter abrigado os gritos e acordes do Tropicalismo nos anos 60. Pode-se dizer que o Bando foi o grande responsável pela revitalização do Vila Velha?
Jorge - O grande responsável não sei, mas posso dizer que foi um dos pilares que compõem essa sustentação, juntamente com os outros grupos residentes, como a Companhia dos Novos, o grupo Cereus (comandado por Hebe Alves), a visão ampla e aberta de Márcio Meirelles, a competência de Ângela Andrade, o vigor de Carlos Petrovich... Tudo isso junto fez que com o Vila retomasse o seu curso normal.


SalvadorcomH - Essa coisa de "teatro experimental negro" na Bahia tem uma tônica toda especial, já que o Estado é o berço da afrodescendência brasileira. Ao longo de mais de 20 anos de existência, o Bando legou excelentes frutos à cultura nacional, como Lázaro Ramos – que hoje reina soberano nas telas de uma das maiores emissoras de TV do mundo – e Ó Pai Ó, o filme que virou minissérie da mesma emissora (Globo). Você acha que o Bando foi um dos grandes responsáveis pela inserção do negro na TV de Jorge-Washington-foto-Larcio-Brasiluma forma mais digna - ou melhor, você acha que, depois do Bando, o negro passou a entrar pela porta da frente da TV?
Jorge – Para que isso acontecesse ocorreu um conjunto de fatores. O Movimento Negro, como um todo, já vem questionando essa postura da mídia de um modo geral há mais de 30 anos. Então, o Bando vem a reboque dessa luta quando Márcio Meirelles pensa em montar uma companhia de teatro negro e divulga isso. Essas pessoas que se juntam a esse desejo vêm também com a vontade de falar de coisas que a gente acha que não estão certas, de ir pra cima dessa mídia racista. E atores como Lázaro Ramos, com toda essa consciência, com essa formação, facilitam a nossa causa.


SalvadorcomH – Ó Pai Ó te levou ao cinema e à tela da Globo. Como foi fazer esses dois trabalhos e o que de mais marcante aconteceu nas gravações?
Jorge – Ó Pai Ó foi uma experiência fantástica, até porque começou no teatro com a “Trilogia do Pelô”, consistente nas peças Essa é Nossa PraiaÓ Pai Ó Bye Bye Pelô, todas do Bando de Teatro Olodum. A partir daí, Monique Gardenberg criou o roteiro para o cinema. Monique é uma grande admiradora do Bando e do poder de improvisação, da modo baiano de falar e que o Bando sabe reproduzir tão bem... É engraçado que ela queria dar o “corta” mas não conseguia, justamente por valorizar o nosso improviso. Tínhamos muita liberdade para criar. Já o seriado na Globo tinha, além de Monique, outros diretores: Carolina Jabor, Mauro Lima (diretor do filme Meu Nome Não é Johnny) e Olívia Guimarães (diretora de A Grande Família, seriado da Globo). O seriado foi uma baita experiência, justamente pelo fato da gente trabalhar com vários diretores diferentes. Aquilo foi um “intensivão” de televisão... Além disso, creio que a coesão daquele grupo de atores seja uma coisa ímpar na televisão brasileira até hoje.


SalvadorcomH - Essa coisa da posição do negro na sociedade brasileira é bem interessante, principalmente quando comparada à do negro dos Estados Unidos. É evidente que não dá pra comparar os dois países, mas é incrível a credibilidade que os norte-americanos conferem aos negros talentosos (isso, mesmo diante de um racismo historicamente violento, capaz de criar sociedades racistas como a Ku Klux Klan, por exemplo). Veja que a coisa chegou a tal ponto que hoje eles têm um presidente negro... Outros exemplos podem ser citados, como o de Oprah Winfrey (que deixou um programa de estrondoso sucesso na rede ABC para ser proprietária de sua própria emissora de TV), Úrsula Burns, presidenta da Xerox, além das inúmeras celebridades no cinema e na música. A Beyoncé brasileira muito provavelmente seria loira de olhos azuis... Por outro lado, só agora - depois de décadas de atraso - o Brasil começa a inserir atores negros em papéis de destaque nas telenovelas. Diante de todo esse panorama, você acredita que a televisão, a sociedade e as instituições jorge_washington_e_lazaro_ramosbrasileiras são racistas?
Jorge - Claro que o Brasil é um país racista! (risos) E no dia que a gente assumir isso vai ser mais fácil pra todo mundo, porque esses exemplos que você cita dos norte-americanos são exemplos mesmo, porque como lá a coisa se deu separando branco de um lado e negro de outro, você sabe quem é seu inimigo e cria estratégias para combatê-los. No Brasil esse racismo tido como "cordial" atrapalha, e atrapalha muito, porque trava a participação do negro na educação, na ascenção social, no mercado de trabalho... Ele te trava na vida, e o pior: dando risada da sua cara.


SalvadorcomH – Por quê o Bando de Teatro Olodum se desvencilhou do bloco afro? Houve algum desentendimento?
Jorge – Desde quando o Bando foi criado, em 1990, já ficou acertado que o Olodum nunca o manteria financeiramente e a gente teria liberdade para criação, pra escolher temas a serem abordados de uma forma independente. Então, até hoje nós temos uma relação de amizade, de carinho, e nunca teve nenhum desentendimento.


SalvadorcomH – É verdade que você rejeita trabalhos? Como é essa história? Tem até um caso de um comercial de uma montadora de automóveis...
Jorge – Eu sou um ator negro, e um ator negro tem que se comportar como negro. Qualquer papel que venha a desqualificar a raça negra e me for oferecido, eu estou fora. Outro dia uma produtora me ligou pra fazer um teste pra um comercial do carro Renault Clio. Eu topei. Duas horas depois ela me liga de volta dizendo que a produção me dispensou porque eu não tenho o perfil para o personagem do comercial. Aí eu questionei: Por quê? Negro não compra Renault Clio?


SalvadorcomH – Que tipo de personagem você rejeitaria "numa boa"? Existe isso ou a "geladeira vazia" é um sinal de que não se pode escolher (risos)?
Jorge – Eu vou escolher sim, não tem geladeira vazia certa! (risos) Porque não tem dinheiro que faça eu vender mais de 500 anos de história de luta da minha raça.


SalvadorcomH – Nos últimos anos, os baianos invadiram a tela da Globo: Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, Wagner Moura, Daniel Boaventura, Emanuelle Araújo e Érico Brás (seu colega de Bando e de Ó Pai Ó, atualmente na série Tapas & Beijos ao lado de Andrea Beltrão, Vladimir e Fernanda Torres) são apenas alguns nomes dessa grande leva. Você já foi sondado pela Globo ou pela Record? É uma meta sua ir para a TV através de uma telenovela?
Jorge – Sem nenhuma modéstia, eu não tenho vontade nenhuma de sair da Bahia pra fazer TV no Sul. Estou muito feliz com o teatro que faço com o Bando de Teatro Olodum. Nós fazemos teatro aqui com muita dignidade, fazemos cinema, fazemos televisão, sem precisar sair da Bahia. A gente tem que parar com essa idéia de que  fazer sucesso é estar na tela da Globo. As respostas que eu tenho do público com espétaculos como "Cabaré da RRRraça", "Áfricas" e mais recentemente "Bença" me sugerem que estou no caminho certo.


jorge_washington_com_marcio_meirelles_e_carlinhos_brownSalvadorcomH – Fale um pouco sobre a dramaturgia baiana no teatro, na TV e no cinema. Como estamos e para onde vamos nesse terreno? Você acha que a televisão baiana precisa investir em produção regional ou isso é materialmente inviável?
Jorge – Eu acho o teatro baiano um  dos melhores do mundo, não deve nada a ninguém. O nosso cinema está aí, ganhando prêmios pelo mundo afora, como em Cidade BaixaJardim das Folhas Sagradas e daqui a pouco eu estarei aí na telona com O Homem que Não Dormia, de Edgar Navarro. A regionalização da TV já passou da hora. A gente gosta de se ver na TV, e se ver como a gente é de verdade!


SalvadorcomH – O que falta ao Brasil para dignificar a raça negra?
Jorge – Primeiro, há de se fazer uma correção: a raça negra é muito digna. Agora, falta ao Brasil assumir que é um país racista e que esse racismo precisar ser abolido. O Brasil precisa entender que a diferença é mais que saudável, que ela é essencial para a formação de uma nação. Imagine se tudo fosse azul? Seria um saco, né? (risos)

BENÇA - um depoimento

foto: JOÃO MILET MEIRELLES


            Caríssimos e caríssimas, todos e todas do Bando:
            Ainda estou em estado de êxtase. De que lhes falo? Da oportunidade singular que Auristela – e citar Auristela é citar o Bando – me proporcionou. De repente, desses momentos que são gestados no Orun, a voz de Auristela ao celular, querendo que eu fosse ver vocês em cena. Fui e ainda levei o outro “bando” que costuma me acompanhar.
            Logo de início, aquele arrebatamento do começar diferente: ambiência de luz quebrada, som que parecia barulho das ondas do mar no bojo de um navio negreiro. Era a travessia da realidade para o sonho, mas também da fantasia para verdade que estava começando. Mulheres e homens de idades diferentes, cada um em seu lugar, mas todo mundo com indumentária parecida: era a realidade da vida – os humanos na existência – que era chamada à cena.
            O som assumiu outra gradação, instrumentos foram se adicionando. De repente, olhe eles ali, também: os recursos da tecnologia moderna integrando o fazer e o saber dos negros. E aí começou: os mais velhos sendo chamados para dizerem do seu saber, para nos ensinar a atravessar a existência com mais humanidade. Na arena, o primeiro deles, o poderoso Pai da Criação, vergado em dois, no corpo dos homens e das mulheres, em plena arena da criação. E lá se foi ele que, sendo um, é múltiplo... Na tela, a mais velha, Macota Valdina, desvendando o saber de como aprender viver...
            E aquele recurso do mais velho falando em imagens projetadas em paredes opostas. Simplesmente fantástico! E mais, um tempo descompassado que trazia uma multiplicidade de vozes formada por uma única voz. Mais tarde, a mais velha e o mais velho falando simultaneamente, E platéia ensandecida no apuro dos ouvidos acostumados à sequência do narrar dos brancos com princípio, meio e fim. Onde está o princípio? Cadê o meio? Onde está o fim? Nada disso; é tudo junto… Vozes na arena, vozes nas projeções, vozes, vozes, vozes...
            Ah, e aqueles vivos (mais jovens) carregando os ancestrais nas costas? Me vi no meio de vocês, carregando Vó Mejigã, Vó Maria Figueiredo, Tia Luzia e Tia Jovanina. No carrego delas, o carrego de meu povo tribal vindo de Ilexá. Aqui pra nós: fiquei imaginando aqueles atores e atrizes, vergados ao meio, carregando o peso do corpo do outro e ainda cuidar da técnica de teatralizar: o ritmo, a pausa, a voz, o respirar, o caminhar encurvado: meu Deus!
            E vocês nem se esqueceram da voz dissonante que copia os brancos: o homem gritando “velho é pra ir pra o abrigo!”; a mulher gritando “Deus é injusto, levou meus dois filhos!” E na dissonância dessas duas vozes a diferença abismal entre o saber e o modo de interpretar o universo e vida entre negros e brancos. São essas diferenças que o sistema branco sempre rejeitou em nós, no excesso de sua branquitude: Deus é branco; o filho de Deus é branco; a mãe do filho de Deus é branca; os anjos são brancos e a brancura é do Reino do Ceu. Enquanto isso, o Cão é preto etc, etc...
            A surpresa maior, no entanto, foi reservada para o momento derradeiro de vocês na arena. Macota Valdina foi falando do Tempo, foi falando em voz pausada, em frases curtas... E quando ela se calou e a gente procurou vocês... Cadê vocês?! Tinham ido embora... É assim mesmo que a Vida/Morte faz: quando a gente dá cor de si, a arena da vida está vazia. Lá se foi o ente amado, lá se foi a juventude, lá se foi o emprego, o casamento, o caso, o amor, lá se foi a própria existência... Ficou a esperança do costumeiro: “Vão voltar pra receber os aplausos...” E aí, nada aconteceu. Como recuperar a palavra depois de proferida, a pedra depois de atirada, a bofetada depois de dada, a vida depois de finda?
            E a platéia, assim, apilolada, desamparada de si mesma, ficou sem saber o que fazer, tal qual todo mundo fica, quando se depara com a Verdade: emudecida, atordoada por descobrir que a Verdade tem outras verdades. E me deu uma vontade maluca de ocupar o centro da arena e deixar meu Sentimento falar bem alto de nossas coisas, nossas vidas, nossas verdades. Isso, porém, seria impedir que o espetáculo cumprisse o seu papel. E ele devia ser a voz maior a ser recolhida nas profundezas de nós mesmos, para nos certificamos de como somos, os filhos dos ancestrais, divinos e maravilhosos. É só querer nos ver, nos ouvir, nos saber.
            O melhor dos abraços de axé para vocês. E para a querida Auristela, o penhor de minha gratidão.

Ruy Póvoas